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quinta-feira, 28 de abril de 2011

O fenômeno Flamengo

O fenômeno Flamengo
Antonio Augusto Dunshee de Abranches

Nos últimos meses, a torcida do Flamengo tem protagonizado espetáculos de rara emoção e beleza nas tardes e noites do Maracanã ao comparecer em massa para empurrar seu time - até então desacreditado e sem chance de vencer a atual competição brasileira - em direção à disputa da Taça Libertadores da América de 2008. Para explicar esse fenômeno, há várias teorias sobre o porquê de o Flamengo provocar tanto fascínio em todo território nacional há mais de 5 décadas. As mais plausíveis trabalham com três hipóteses: a) desde a década de 40, suas vitórias e seus múltiplos títulos conquistados no Rio de Janeiro eram transmitidos pelos locutores em onda curta da Rádio Nacional, a única que alcançava quase todo o país; e deu ao clube o título de "O Mais Querido do Brasil"; b) desde o primeiro tricampeonato, em 1942, até o último, em 2000, o Flamengo sempre contou com ídolos do naipe de Zizinho a Zico; c) desde a fundação, teve 4 tricampeonatos cariocas, 5 campeonatos brasileiros, 1 campeonato sul-americano (Taça Libertadores) e o mais expressivo de todos - Campeão do Mundo. em 1981, em Tóquio. Portanto, para esses, foi rádio, em 50 anos de transmissões de futebol, que elevou o Flamengo ao lugar que desfruta no coração de milhões de brasileiros.
Hoje, porém, a situação mudou, como está sendo provado em 2007, com o comparecimento da torcida mesmo sem o Flamengo ter como conquistar o título de campeão. O que mudou? Em primeiro lugar, mudou a FIFA, que proibiu a presença de 150 mil espectadores no Maracanã assistindo as partidas em pé e limitou a capacidade dos estádios a quase 50% do espaço existente, obrigando a colocação de assentos e ingressos numerados. Com isso, alguns estimavam que a paixão pelo futebol poderia reduzir-se. Mas, ao contrário, o efeito foi favorável. E a responsável pela nova era foi o fenômeno televisão, que acabou por multiplicar torcedores. Prova disso é que hoje já se aceita, sem contestação, que há 135 milhões de torcedores do Flamengo, em todo o Brasil, que se mostram na TV quando o time vai jogar fora do Rio, sempre diante de uma platéia maior que a do time local.
De fato, nos últimos anos da década de 70, a TV GLOBO fez pioneira parceria com o Flamengo - e depois com os demais clubes - para transmissão remunerada das suas partidas de futebol. As partes interessadas tiveram tanto sucesso que, recentemente, o futebol saiu da grade de esporte e passou para a de entretenimento, proporcionando a todos uma divulgação extraordinária através da transmissões diretas e no sistema pey-per-vieux. Assim, de alguns anos para cá, às quartas, sábados e domingos, o futebol está presente na casa de todos os brasileiros. E, por osmose, a torcida do Flamengo vai aumentando em progressão geométrica. Os recordes de presença de público pagante na atual fase do campeonato brasileiro de 2007 confirmam que a novidade provém da divulgação que a TV dá ao futebol. Aliás, em todo o mundo o futebol passou a ser mais um espetáculo de televisão de que ao vivo, em razão da aplicação das mesmas regras impostas pela FIFA.
No Brasil, embora não tanto quanto os europeus, com moedas mais fortes e adiantados no uso do marketing e do merchandising, os clubes passaram a ganhar rios de dinheiro pela comercialização das suas imagens e marcas. Nunca é perigoso afirmar uma realidade: o futebol no Brasil de hoje é puro business e sobre essa verdade merecem ser citadas três pessoas já falecidas, na ordem cronológica das decisões tomadas: João Carlos Magaldi, Walter Clark e Roberto Marinho. Os dois primeiros, atuando simultaneamente como dirigentes do Flamengo, fundadores da FAF (Frente Ampla pelo Flamengo) em 1976 e diretores da TV Globo; o último, um homem de grande visão midiática e empresarial, que autorizou a ação dos seus subordinados no sentido da assinatura do contrato com os clubes para transmissão remunerada de partidas de futebol.
Porém, não pararam aí as ações necessárias ao desenvolvimento do futebol como fonte de recursos através da televisão. Houve lutas árduas, em outras áreas, com o Flamengo sempre na frente de combate. Com efeito, no ano de 1977, ainda não era permitida a propaganda na camisa dos clubes do Brasil. O CND (Conselho Nacional de Desportos) implicava muito com a idéia e tinha a primazia de legislar sobre esportes. Não havia meio de concordar com a novidade. Então, o departamento de relações externas do Flamengo desfechou o golpe fatal: começou a endereçar petições ao CND com teses de direito civil incompatíveis com controle do poder público. Alegava propriedade privada sobre a camisa do seu time e seus espaços publicitários liberados em todo o mundo; pediu liberdade de associação e denunciou a ausência de lei federal sobre a matéria. Com isso atraiu para o debate dois aliados, Carlos Arthur Nuzman e Francisco Horta, ambos do Fluminense. Acuado, finalmente o CND expediu resolução dando na autorização para propaganda num pequeno retângulo na camisa. Então, surgiu a parceria do Flamengo com a Petrobrás, a pioneira, que frutifica até hoje, desde 1983.
No entanto, ainda faltava um obstáculo a vencer - os clubes dos países vizinhos, participantes da Taça Libertadores da América, que, por regulamento, tinham o direito de receber os direitos das transmissões dos jogos realizados no Brasil (para milhões de brasileiros), enquanto que os brasileiros eram obrigados a se contentar com a receita dos jogos de lá, transmitidos para poucas centenas de telespectadores. Era um verdadeiro assalto. Para reverter o quadro, foi movimentado André Richer, rubro-negro roxo e ex-presidente do clube, double de consultor jurídico da CND, que comprou a grande briga pedida pelo departamento de relações externas do Flamengo: oficiou à EMBRATEL e proibiu por tempo indeterminado a saída e a entrada pelo satélite do sinal de TV dos jogos Flamengo na Libertadores de 1981. Foi o golpe de misericórdia. O regulamento da Confederação Sul Americana mudou rapidinho e os clubes brasileiros passaram a ter uma considerável renda mensal (propaganda na camisa + receita da TV), o que lhes permitiu viver desde então sem as expressivas rendas das bilheterias dos estádios. O Flamengo continua a ser o clube que mais recebe dinheiro de propaganda, mas há 15 anos não ganha um campeonato brasileiro. Alguma coisa está errada.
Antonio Augusto Dunshee de Abranches foi o presidente do
Flamengo na conquista do título de Campeão do Mundo.

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