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quinta-feira, 28 de abril de 2011

A venda de jogadores jovens para o exterior
Antonio Augusto Dunshee de Abranches

Bateu na vidraça do Palácio do Planalto a pedra que costuma ser jogada contra os clubes de futebol que vendem seus craques ainda jovens para o exterior. Embora essa prática nociva ao futebol brasileiro perdure há cerca de 30 anos, desde que foram sancionadas sucessivamente as chamadas leis Zico e Pelé, nos governos Collor e Fernando Henrique, o petardo acabou atingindo o presidente Lula, porque criticou a seleção brasileira e recebeu uma resposta grosseira do goleiro Júlio Cesar. O incidente não teve maiores conseqüências, mas abre espaço para lembrar que a causa do êxodo dos nossos melhores jogadores não deve ser imputada aos somente aos clubes.
De fato, até 1993, quando foi sancionada a Lei Zico, o candidato a jogador de futebol procurava um clube (ou era descoberto por olheiros) , fazia testes, mostrava suas habilidades e era imediatamente "federado", ou seja, assinava uma ficha de inscrição na federação de futebol do estado onde morava. Este ato criava um "vínculo" do jogador com o clube, chamado "passe". A conseqüência era que, embora amador, o "federado" não podia se transferir para outro clube sem a concordância daquele que o "federara", como garantia do investimento que faria daí em diante, dando-lhe casa, comida, colégio, saúde, preparo físico e alguma ajuda de custo para a família pobre. O clube tinha o objetivo de transformar a jovem promessa num verdadeiro craque, capaz de contribuir para a conquista de títulos. Melhor exemplo da eficácia daquele sistema foi a transformação do próprio Zico, que chegou ao Flamengo numa condição física insatisfatória e se tornou o maior craque da história do clube.
Com o advento da Lei Pelé, a situação mudou radicalmente tudo que regulava a prática do futebol no país. Acabou com o "passe". O "vínculo" do jogador com o clube passou a ser um contrato de trabalho da CLT, com prazo máximo de 5 anos e direitos sociais iguais aos de todos os trabalhadores. Mas, esta mudança fragilizou a estrutura das divisões de base dos clubes. Daí em diante, se surge um jogador de 16 anos, como uma promessa de craque, para segurá-lo no clube não há outra alternativa senão dar-lhe um contrato de trabalho até 21 anos, pagar-lhe bons salários e os encargos sociais correspondentes, durante 5 anos, e torcer para que a promessa se transforme em realidade. Essa novidade pode pareceu à primeira vista justa para um determinado jogador, mas no conjunto, a realidade mostrou-se outra: a) o amor à camisa desapareceu; b) a maioria dos jogadores formados na base ambiciona assinar contrato com outro clube, ir para a Europa ou até para o maior adversário do clube que o formou; c) as equipes de juvenis e juniores, que necessitam de pelo menos 30 garotos em atividade, não suportam os assédios aos jovens para trocarem de time.
Em conseqüência, os clubes passaram a ser formadores de craques para os empresários, novas e sinistras pessoas milionárias, surgidas no futebol, a partir da Lei Pelé, que realizam fabulosos lucros, porque não pagam impostos, salários e encargos; porque atuam à sombra de procurações assinadas por pais de jogadores com pouca instrução e muita ambição, dando-lhes poderes ilimitados para transferir para outrem seus filhos formados nos clubes. Em outras palavras, os empresários são "clubes informais", que se colocam à margem do INSS e da Receita Federal.
Portanto, se o presidente Lula está preocupado com a seleção brasileira, não lhe custa formar um grupo de trabalho voltado para as correções indispensáveis à Lei Pelé. A primeira delas, sem dúvida, é definir os clubes de futebol como sociedades atípicas, sem fins lucrativos, que não devem ser enquadradas da mesma forma que os contribuintes que visam o lucro. No Flamengo e no Corinthians, por exemplo, a manutenção de um time de futebol capaz de honrar as tradições dos dois clubes é incompatível com a obrigação de fazer uma gestão sob a forma de empresa, com os pesados ônus dai decorrentes. Clubes de futebol no Brasil, pela sua importância para a quase totalidade da população, devem receber incentivos fiscais; jogadores de futebol devem receber do Estado, ncentivos para ficar no Brasil e valorizarem as camisas que vestem, independentemente do dinheiro que ganham. É fácil mudar. Falta vontade política.


Antonio Augusto Dunshee de Abranches é ex-presidente do Flamengo, campeão do mundo em 1981

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